1985. Tanta fervura na política nacional, a morte do Tancredo Neves sem o exercício das atividades de seu sonho, o declínio ditatorial, enfim, coisas do meu tempo que eu não sabia explicar e entender.
A boina era a tão temida prova física e emocional para os conscritos como o diálogo enfadonho dos motoristas que falavam da ladeira da maternidade, que se tornar soldado combatente devia-se, de início, afunilar-se ao fogo ardente do esmeril que amola, e o martelo que bate no ferro para moldá-lo.
Eu lá queria aquilo, só por conta de um sonho ou vontade de meu pai dizer que agora o filho ia para o exército. Eu primava mesmo era pela vontade de estudar, e ali eu não podia. Devia, sim, aprender a manusear o fuzil, não uma caneta. E agora, como ficavam os cursinhos que fiz na LBA?
Batendo na porta do sonho
Com o tão sonhado canudo de datilografia eu confessava para os meus botões que ali eu teria oportunidade e que meu pai estava certo. Então chegada a hora do primeiro processo seletivo a que me submeti (apresentação dos soldados no pátio da companhia), ouvi do superior os questionamentos: 1) Quem aqui sabe dirigir? Eu lavava carros, sabia manobrar, então não era para mim. 2) Quem aqui entende de mecânica? Nem liguei. Minha expectativa era outra. 3) Quem aqui sabe cozinhar? Eu era faminto 24 horas, mas só cozinhava ovos e os mandis do rio Acre.
Poxa, parece que ele não vai falar nada de datilografia?
4) Quem entre vocês sabe datilografar? Ah, meu Deus, até que enfim. Poxa. Tirei nota máxima lá na dona Neodeme, vou levantar o braço, e se pudesse levantaria os dois para ele ver melhor, já que sou baixinho.
Quando o tenente olhou para todos os lados, fiz o mesmo discretamente, e quase todos que estavam ali queriam também dá um passo a frente. Quase todos com os braços levantados. Creio que ele não me viu. Olhou para estaturas. Escolheu uns quatro e me deu uma punhalada nas costas, eliminando meus sonhos ali, naquele momento.
Aos demais determinou que escolhessem as melhores canetas cegas ali amontoadas para cortar o mato do Círculo Militar. “Desgramado!” Os calos falavam com as minhas mãos e exigiam providências.
Boina
Todos os soldados da minha companhia descansavam à espera de mais uma instrução noturna. Chovia, e as folhas secas descolavam dos galhos. Algo se movia em minha gandola. Não deu tempo de passar a mão, pois eu achava que seria uma leve ramagem. Uma picada violenta me deixou atordoado, e a primeira vez que eles ouviram o meu berro de dor. E eu até esquecia das vezes que meu pai me batia. Aquela dor era mais vitoriosa que as minhas lá do casebre da Cidade Nova.
Soros antiofídicos quase mortais. Quase perco o braço por causa de uma picada no pescoço, já no finalzinho da Boina, e na verdade não foi cobra que picou meu pescoço, mas uma espécie de escorpião. Internado há bastante tempo na sede, fiquei.
Até hoje eles me chamam de Roberto Cabeça de Lacraia, um apelido nem perto do nome que me queriam classificar quando entrei.
A turma foi destaca para as sedes de suas companhias. Então, como eu estava destacado para Assis Brasil, mandaram-me para Plácido de Castro. Antes, disseram: Você fará um curso de cabo, e depois irá para a cidade do Abunã.
O curso
Friagem no Acre. Naquele tempo o nosso Friale eram os ossos de nossas avós, de preferência na coluna. Nunca falhavam.
Um monte de soldado dentro de um caminhão tomados por câimbras foi para as matas novamente. Eu estava me reencontrando naquele ambiente... Jesus! Na instrução eu até me dedicava com atenção, mas o assunto não era dos meus, como nunca foi, esse negócio de inimigo, trincheira e tal. À minha frente, todavia, alguns sodados conversavam, o que chamou atenção do instrutor.
- Vocês aqui, levantem-se!
- Sargento, leve-os para pleura. O que seria pleura? Banho até o último fio de cabelo. Fazia muito frio naquela época.
Um monte deles, inclusive eu, que não falava nada e não interrompia a instrução, estava agora prestes a mergulhar num açude de água suja. Não, meu Deus, eu não irei. Por favor me guia.
Enquanto eles marchavam para o açude, eu me desviava e entrava tomando rumo na mata que só Deus sabia naquela escuridão sem fim com cerca de arame farpado. Não irei tomar banho nesse frio por causa de quem pecou.
Ninguém se importou comigo. Nem deram falta. Saí babatando, como dizia minha avó. Eu tateava nos arbustos, tropeçava e caía, não sabia nem em sonho onde ficava o acampamento, batia a cabeça, mas não sei como eu cheguei lá em plena e cerrada escuridão.
Acertei a minha rede em meio a centenas delas. Entrei, fechei o zíper e me agarrei ao fuzil. Dormi tão pesadamente que não ouvi sequer o som ensurdecedor das bombas matinais que soltavam por todo o alojamento pra gente correr feito loucos e ir para o café da manhã e seguir para as instruções. Eles não comentaram nada. Não me viram, tanto que se foram e fiquei na rede, morto de cansaço e ferrado.
– Agora estou ferrado mesmo, meu Deus. Acordei.
Corri, tropecei, caí várias vezes à procura do grupo.
Não sei como, mas encontrei todos enfileirados, aguardando o café da manhã com as canecas firmes nas mãos. Olhei por entre os arbustos com olhos ziguezagueando em busca de alguém à espreita. Agachei-me por baixo do arame farpado e corri feito um condenado para o final da fila. Ao último soldado cumprimentei, e ele me deu bom dia e nem sequer percebeu que há pouco instante era o último da fila.
- Está limpa a área. Abasteci o cantil e misturei suco de limão galego, farto naquele local. E, chegada a vez, estenderam-me pão, café e leite, e a minha vida e a dignidade misturaram-se como um gostoso e repleto café da manhã por conta de um erro que não cometi, e não paguei, mas saboreei.
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