sábado, 17 de julho de 2021

A vida num compasso diante dos percalços

 

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Viver é bom 


Desenho: João Felipe S.

A minha história é contada num livro, o qual, na licença-prêmio que se avizinha em agosto quero concluir. Trata-se, porém, de um velho sonho,  e esse sonho não me causa esforço algum. Maltrata, sim, diante das confusões do pensamento, mas o recurso maior é o carinho dos familiares e amigos que me ajudam a impulsionar as palavras e as ações muitas vezes esquecidas. 

Muito spoiler retalhado deixo na profusão das postagens nas redes sociais, ou melhor, na minha página. Sem qualquer intenção de sobrevivência a expensas de um mero livro, o cenário é o que me representa e interessa.
O meu pai foi um homem bonito. Olhos azuis, pela branca, roupas bem engomadas, alvinhas como o leite que me sustentou; caneta e caderneta no bolso, e na palavra a cisma de fugir às regras de um bom prosador e conquistador, sempre se arriscava nessa relutância onde a beleza, a expressão e a profissão são amigas inseparáveis. 
Ocorre que desde a puberdade se aflorou no corpo e no desejo a vontade de um ofício que o retirasse da labuta de um diarista de calos nas mãos. E diante desse sonho, alma, corpo e espírito eram banhados por um vício alcoólico que o consumiu posteriormente.
É por isso que quando avisto a casinha que antes era cercada por cajueiros em Xapuri, e no morro que a denunciava, chamava-se Alto do Bode, presumo que fui uma criança amada por todos. Até hoje meu tio Domingos me chama de Prego Enferrujado por conta de meus cabelos encaracolados e prateados na época de criança de colo.
Ali concentrava-se a família paterna. Avós separados, irmãos unidos pelo respeito, cresciam sem esperança, salvo se o sonho se convergisse às cercanias de um bom mateiro ou extrator vegetal. Fora isso, fugir com alguém que se amava e que trouxesse as chaves da prisão seria uma solução passageira. Ninguém se acomoda na vida com as coisas superficiais.
Aperreios na vida com um filho alcoólatra e pai de família, o fardo sempre é dividido por todos, menos com o sujeito indefinido. Então a comida da manhã, o almoço ou o jantar eram compartilhados sob o labor dos mais fortes e persistentes, como meus avós, minha mãe e meus tios.
Quando a ressaca passava, todos eram inflados por sonhos de meu pai, de modo que se lhe colocavam crédito de que tudo iria melhorar, que o vício enfim esvaía-se , deixando aquele homem decidir a vida e levar a família para Rio Branco, porque lá a vida seria melhor, e o tão almejado ofício de ser relojoeiro da classe alta e magnata do lugar nos renderia bom dinheiro de finalmente possuirmos uma casa e a melhor comida a que todos já comiam. Eu estudaria (sonho de minha mãe), e a família alinhava-se gradualmente à escadinha dos seus desejos com um irmão após o outro. Tudo podia acontecer, menos sermos senhores de um destino improvável.
Mas o destino não é aquele que queremos. 
O vício aumentou, muitos relógios dos mais raros e caros foram extraviados. As contas aumentavam em segundos sob forte pressão e culpa àquele homem, que mais e mais aprofunda-se nos tragos intermináveis na capital. O branco de suas roupas agora pareciam uma farda rajada por lama e sujeira. 
A dignidade nunca nos abandonou. E minha senhora mãe costurava, e das sobras fazia nossas roupas retalhadas, como os sonhos. Ganhava miúdos de galinhas por limpar chãos de supermercados. Aquele cardápio viajava pelas frestas da vizinhança, mas era um cardápio que ninguém queria copiar. Um branco sem colorau. Um gosto sem sal, e a nossa alegria era de fato aqueles pratos. 
Então, eu precisa reagir. Com dez anos mas já servia pra vender galinhas nas ruas da cidade, frutas, refresquinhos... Tanta coisa, sabe. As pessoas me enrolavam, me batiam, e eu não desistia. O tempo passava, ele aparecia vestido das mesmas ilusões. Fazia uma mesinha com um vidro fixado. Pegava uma lupa, colocava no olho, e começava a, cirurgicamente, consertar os Midos, Seikos e Orientes da vida, cheio de vaidade e de amor pela profissão.
O tempo passou como um raio. Ele morreu com aquele sonho que não vingou. Eu continuo nele firmado, como uma semente que depende do solo, da água e do calor do sol. Não conserto relógios, mas reparo que sou feliz por tanta coisa boa que tirei de proveito de meu pai, por seus erros,  e da minha mãe, por sua correção, fazendo tanta coisa boa que me enche de verdade e alegria na vida, como um relojoeiro que conserta as batidas de um coração ferido que luta contra esse tempo querendo insistentemente bater feliz e compassado.⏰⌚⌛

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